Quase's
- Douglas Calado
- 20 de fev.
- 2 min de leitura

Os quase sempre chegam batendo os pés na entrada.
Empurram a porta, se encostam.
Pedem abrigo, ocupam um canto.
E sem prometer nada, insinuam um "querer".
E quando você percebe,
já está arrumando espaço até nas feridas que surraram seu coração,
para alguém que nunca disse que ficaria.
Há o quase que acontece inteiro em um único dia.
Os olhos se reconhecem,
as mãos se encontram,
as bocas se permitem
como se o mundo tivesse aberto
uma fresta só para vocês.
E então acaba.
Feito chuva de verão que molha tudo
e some antes que a terra aprenda a guardar a água.
Você volta para casa com o gosto de um começo
que não teve tempo nem de ser meio.
Há também o quase que não vai embora.
Ele fica.
Mas fica pouco.
Oferece doses mínimas de presença:
é uma mensagem que chega, quando você já está esquecendo.
Um carinho raso, quando você começa a se curar.
Um convite breve só para reacender o que estava quase apagado.
É um quase narcisista, um audacioso mentiroso.
É o quase que alimenta sem nutrir.
Que aquece sem aquecer o suficiente.
Que mantém você vivo numa sala onde nunca amanhece.
Os quase não têm intensidade.
Tem intervalos.
Não tem profundidade.
Tem superfície bonita.
Não tem mergulho.
Tem água pela canela
e a promessa de onda na praia
...que nunca vira maré.
E a gente, por medo de perder até isso,
aprende a nadar em poça.
Aprende a chamar de mar o que mal cobre os pés.
Aprende a agradecer pelo pouco como se fosse muito.
Mas chega um dia em que o corpo cansa de quases.
Cansa de portas entreabertas,
de abraços pela metade,
de amores que existem só o suficiente
para não morrerem e nunca o bastante para nascerem.
E nesse dia, sem anúncio, sem discurso, você solta.
Não porque deixou de sentir.
Mas porque finalmente entende:
o quase nunca é amor.
É rascunho...
E você merece o inteiro.
Douglas Calado
20 de Fevereiro de 2026 Maceió/AL



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