ÍCARO, O SOL E O MAR
- Douglas Calado
- 18 de out.
- 3 min de leitura
Atualizado: 18 de nov.

(Prólogo explicativo)
Voar era o verbo que Ícaro escolheu amar.
E o amor, era o sol sob sua cabeça.
Ele dizia que cada raio era uma promessa, cada clarão, um convite.
Ignorou o pai, o chão, o temor, o mar...
e subiu sem medo,
porque havia descoberto algo maior que a prudência:
a vertigem.
O sol o chamava com voz de fogo,
abrindo seus braços de calor.
Fazendo com que Ícaro acreditasse que podia ser tocado sem se desfazer.
Mas amar o sol é amar o impossível,
é jurar fidelidade ao fogo,
sabendo que ele não abraça, ele devora.
E ainda assim, ele subiu por amor, por loucura e por fé.
Quando o calor derreteu suas asas, ele sorriu.
Porque, antes da queda,
ele viu o rosto do seu amor queimando-lhe os olhos.
E o mar, ciumento e paciente, abriu os braços.
Não para salvá-lo, mas para guardá-lo
como se guarda um segredo que queimou demais para continuar vivo.
Parte 1 O SOL E ÍCARO
Eu o vi subir.
Ele tinha olhos de esperança e asas de desespero.
Gritaram para que voltasse,
mas o amor não entende de regresso.
O amor não conhece a palavra voltar.
Ele vinha em minha direção
como quem buscava um perdão que nunca pedi,
como quem queria caber dentro da luz, dentro de mim...
Eu o quis também.
Mas meu toque seria sua sentença.
Gritei seu nome no idioma do fogo para que voltasse,
mas ele confundiu como um convite.
Quando a cera chorou em suas costas,
meu peito ardeu de culpa.
Eu, que cuido de tantos mundos,
fui incapaz de cuidar daquele único homem.
E o mar, esse cúmplice silencioso
acolheu o corpo que o meu calor queimou.
Desde então,
toda vez que o dia termina,
me abaixo no horizonte
para olhar onde ele dorme.
E cada pôr de mim nesse mundo é só isso:
um deus pedindo desculpas,
as vezes sangrando fogo pelas nuvens
para que ele sinta talvez...
um pouco do mim,
onde quer que esteja.
Parte 2 ICARO (monólogo)
Eu sabia...
Desde o primeiro raio, eu soube:
O sol sempre foi meu destino,
sempre foi meu chamado.
Mas há amores que a gente não escolhe,
eles acendem dentro da gente como uma febre.
Meu pai me avisou sobre o limite,
sobre o peso das asas,
sobre o calor que queima o que sonha demais.
Mas como explicar a um homem apaixonado
que o perigo do querer pode matar?
Eu não queria fugir, queria tocá-lo.
E quando ele sorriu, eu esqueci de tudo.
Esqueci o chão, esqueci o medo,
esqueci que cera não é carne
e que fogo não é amor.
Agora o ar me corta como lâmina,
as penas se despedem do meu corpo,
e cantarolam o amarelo acima da minha cabeça.
Estou caindo, e o azul correndo pelos meus olhos se apaga...
enquanto o azul abaixo de mim se aproxima
cada vez mais rapido...
E então, um impacto silencioso me toma... e tudo desaparece!
Tudo se apaga...
Não me arrependo de nada.
Há quem viva uma vida inteira com os pés seguros no chão,
sem nunca ter sentido o gosto do impossível.
Eu caí, sim.
Mas caí com o peito em chamas,
com o nome dele aceso na garganta,
com o corpo inteiro gritando.
E se o mar for meu túmulo,
saiba que não fui covarde: eu não morri fugindo, eu morri amando.
Parte 3 O MAR E ÍCARO
Eu o vi cair.
Primeiro uma sombra contra o céu,
depois um sopro, e então silêncio.
Não era um corpo que descia
era uma promessa que se despedia do ar.
As ondas correram para recebê-lo,
não por piedade, mas por ternura.
Há quedas que não são fim, são retorno.
Ele chegou em mim com gosto de fogo,
com os olhos ainda flamejando,
como se o sol tivesse deixado um resto de si nele.
Deitei-o sobre minhas águas
e prometi que ninguém o tiraria de lá.
Desde então, meu peito é feito de memória.
Cada maré alta é um soluço seu,
cada espuma, uma pena que sobrou do voo.
Os homens dizem que Ícaro morreu,
mas eu sei:
ele apenas trocou o céu por outro espelho.
E toda vez que o sol se põe em mim,
é como se ele viesse buscá-lo,
num encontro breve, belo, e eterno
entre o fogo e a água, onde o amor,
enfim, não queima nem afoga.
Só sente.
Douglas Calado
17 de Outubro de 2025 Maceió/AL



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