A Última Reza do Vaqueiro
- Douglas Calado
- 27 de out. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 28 de out. de 2025

Essa história que vos conto nasceu como uma sina,
nasceu feito uma prece, um lamento em fé divina.
Veio em sonho, veio em dor, veio em alma nordestina,
me entrego à tua luz, minha Nossa Senhora menina.
No meio do chão rachado, onde o vento sopra em lamento,
vivia um vaqueiro forte, filho da seca e do tempo.
Tinha o couro por armadura, e a fé por alimento,
E no peito um coração, sofrendo ao sol e relento.
Dizem que foi no sertão, no verão mais abrasador,
que um vaqueiro de alma limpa conheceu seu grande amor.
Homem simples, fala mansa, domador da própria dor,
que enfrentava sol e seca pra servir ao seu senhor.
Era tempo de boi magro, chão rachando no estradilho,
o vento levava o pó, e também todo seu brilho.
O gado morria sedento, e o vaqueiro, mermo em empecilho,
rezava a Padim Ciço: “abençoe esse teu filho.”
Nas horas que o sol fervia e o gado caía cansado,
olhava o velho Chico, sereno e abençoado.
“Meu São Francisco, me guia”, dizia pro rio sagrado,
“leva minhas dores contigo, que o amor de mim foi tirado.”
Foi quando viu a donzela, moça branca de fazenda,
vestida em renda bordada, beleza que o céu não desvenda.
Olhar que trazia promessa, voz que o tempo não emenda,
e um perfume de saudade, que no peito virou prenda.
Foi nas margens do Velho Chico que ele viu a mais formosa,
branca como nuvem rara, no sertão feito uma rosa.
Era filha de fazendeiro, carinhosa e cheia de prosa,
mas o amor não vê bandeira, e a paixão é dolorosa.
Ela lhe deu um sorriso, e o tempo parou de andar.
O vaqueiro esqueceu da fome, esqueceu até de rezar.
De noite foi na fazenda, ao Coronel foi falar,
Seu coração quase saiu da boca, quando pediu pra casar...
Mas o pai dela, orgulhoso, mandou logo separar:
“Cabra pobre num tem vez! Mande esse amor se calar!
Fia minha é criada na rédea, passe daqui pra lá!”
O vaqueiro baixou a crina e saiu sem nada falar.
Ela, filha de coronel, criada em luxo e temor,
não podia amar vaqueiro, nem saber o que era amor.
Mas paixão quando é destino, não disfarça nem a dor,
entra feito vendaval, vira prece e até calor.
No terreiro, sob a lua, se encontravam escondidos,
ele dizia: “meu bem, se eu morrer, morro sabido.”
E ela, com as mãos tremendo, respondia em tom contido:
“Padim Ciço, Nossa Senhora, guarda o meu amor contigo.”
Mas o pai descobriu a sina e jurou o céu castigar,
A moça foi levada embora pras terras perto do mar,
O vaqueiro ficou só, pra o coronel enfrentar,
partiu de peito aberto no tempo, "deixe ele me matar".
O sol rachava o terreiro, o vento cortava a estrada,
o vaqueiro vinha rezando, com a alma apaixonada.
No terreiro da fazenda, a vingança foi tramada,
quando o coronel gritou: “esse amor não vale nada!”
O estampido rasgou o céu, o cavalo se assustou,
o couro virou lembrança, o silêncio se espalhou.
Com o peito aberto de dor, o vaqueiro se inclinou,
e o velho chico feito milagre, correu e o abraçou.
O coronel, de sua distancia, com sangue frio no olhar,
disse rindo pros capangas: “não há mais o que chorar.
Esse cabra já se foi, não há mais de incomodar!
Foi levado pelo rio... nunca mais há de voltar.”
Passaram-se muitos dias, sol, estrada e solidão,
a moça seguia calada, chorando em devoção.
No ventre um filho crescia; no peito só oração,
pedindo a Nossa Senhora pra acalmar seu coração.
O sol descia triste quando a notícia deu sinal,
de longe, um tropel se ouvia vindo do matagal.
Era o cavalo do amado, cambaleando no quintal,
com a sela cheia de sangue, parou diante o varal.
A moça, em pranto e coragem, sentiu o corpo gelar,
“é ele!”, gritou pro céu, sem nem pensar em parar.
Montou no bicho ligeiro, sem rumo, sem se guiar,
voltou cruzando o sertão para o seu amor salvar.
Mas quem ama não desiste, mesmo que o mundo acabe.
E no cavalo velho e manso, saiu sem fazer alarde.
Cortou vereda e caatinga, com o sol queimando a tarde,
seguiu o cheiro do amor, pois ele nunca é covarde.
Foi o Velho Chico santo quem guiou seu coração,
entre mandacaru e pedra, entre dor e oração.
Até que avistou sua casa, feito brisa no sertão,
e o destino, comovido, mostrou-lhe a direção.
Chegando à velha fazenda, o pai frio, sem piedade,
lhe disse com voz de pedra, sem traço de caridade:
“Teu vaqueiro já se foi, essa é a realidade.
O caboclo d’água o levou... nessa, tu chegou tarde.”
Mas o amor era mais forte que o tempo e o sofrer,
a moça, sem esperança, correu no rio pra ver.
O céu fechou de repente, começou a escurecer,
e o vento em voz de prece, soprou pra ela entender.
Correndo toda em pranto, com seu rosário na mão:
“Minha Senhora das Dores, consola meu coração.
Protege o filho que trago, pois é semente do chão,
que o amor me deu por herança, feito flor em solidão.
Nas margens do Velho Chico, ela se ajoelhou chorando,
“Padim Ciço, dai-me alento, que o peito tá sangrando.
Se ele tá nas vossas águas, me dê paz me consolando,
porque sem meu vaqueiro amado, a vida tô te entregando.”
E o rio, lá nas margens, guardava o segredo inteiro,
do vaqueiro que caiu, levado num tiro certeiro.
Mas o Velho Chico é santo, e santo não faz roteiro,
devolve o amor aos vivos, se ele for verdadeiro.
Nessa hora subiu da água, ele montado em seu cavalo,
com chapéu feito de luz, e o olhar manso, sem estalo.
“Voltei, meu bem”, ele disse, “o santo rio me trouxe do embalo.
Padim Ciço me guardou, pra cumprir o nosso fado.”
Ela caiu de joelhos, o rosário a cintilar,
e o filho, em seu ventre começou se agitar.
Era o milagre do amor, que nem o tempo ia secar,
porque o rio do destino nunca deixa de passar.
Ali, o amor nasceu, igual chuva no terreiro,
igual canto de aboio, igual sonho de vaqueiro.
“Meu Deus”, ele disse chorando, “isso é amor verdadeiro.”
E o rio, correndo leve, virou amor por inteiro.
Ele se abriu sereno, chamando-a bem devagar,
como mãe que acolhe o filho quando ele vai descansar.
Ela entrou na correnteza, sem medo de se afogar,
e o rosário e seu filho ficaram naquele lugar.
o Santo Rio teve pena, deu-lhe a graça e o enlevo,
fez o amado aparecer, mas só no olhar, seu desejo.
E quando ela o abraçou, era o vento, era o relevo...
era a fé virando amor, era o milagre do Chico inteiro.
Dizem que as águas pararam, e o sertão silenciou,
seu cavalo apareceu e nas ondas mergulhou.
O amor dos dois se encontrou, e o rio se iluminou
desde então o Velho Chico... nunca mais se apagou.
E até hoje o povo canta, nas margens e nas feiras,
que a fé move o impossível e amansa as madrugueiras.
Que o amor do vaqueiro e da moça era de luz verdadeira
vive eterno no santo Chico, sob a bênção das rezadeiras.
E o sertão aprendeu com eles, com sua fé e bravura,
que o amor é o rio eterno, correndo até na secura.
E quem ama, mesmo longe, enfrenta a dor e a procura,
porque um coração nordestino não teme nem a loucura. Quem passar por suas margens, que reze com devoção,
pois ali mora um segredo guardado em oração.
Entre o barro e o luar, vivem de eterna paixão,
feito reza de saudade, batendo no coração.
Douglas Calado
27 de Outubro de 2025
Maceió/AL



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